Aprender a ver com o coração de Dom Bosco
Há cegueiras que atingem os olhos, mas há outras, talvez mais profundas, que nos impedem de perceber as pessoas, suas necessidades e os apelos de Deus presentes na realidade. A reflexão do Reitor-Mor sobre a cura de Bartimeu oferece-nos uma chave para percorrer esta edição do Boletim Salesiano: precisamos deixar que Jesus purifique o nosso olhar, para vermos aquilo que realmente importa.
Bartimeu reconhece sua fragilidade, pede misericórdia e, depois de recuperar a visão, segue Jesus pelo caminho. Sua experiência recorda-nos que a fé não consiste apenas em receber a luz, mas em permitir que ela transforme nossas escolhas. Quem aprende a olhar com os olhos de Cristo não permanece indiferente diante do sofrimento nem silencia as vozes que vêm das margens.
Esse olhar torna-se especialmente necessário em um tempo marcado por polarizações políticas, transformações no mundo do trabalho e rápidas mudanças tecnológicas. A participação política deve estar orientada para o bem comum, o diálogo e o respeito. Antes de qualquer filiação partidária, somos chamados a pertencer ao “partido de Deus”, colocando a dignidade humana acima das ideologias. É a “política do Pai-Nosso”, recordada por Dom Bosco: se todos chamamos a Deus de Pai, precisamos reconhecer-nos como irmãos e irmãs.
Também somos convidados a olhar para as juventudes não apenas como destinatárias de nossas ações, mas como protagonistas do presente. A trajetória da jovem Eloize, que levou a voz do Pantanal a importantes espaços de participação, mostra o quanto pode florescer quando uma jovem encontra acolhida, formação, confiança e oportunidades. Ao mesmo tempo, a reflexão sobre o mundo do trabalho revela os desafios enfrentados por tantos jovens que buscam autonomia, dignidade e um projeto de vida, mas encontram desigualdades e poucas oportunidades.
Nesse contexto, Madre Mazzarello continua ensinando-nos que educar significa caminhar ao lado, escutar, conhecer cada pessoa pelo nome e ajudá-la a descobrir os dons que Deus colocou em seu coração. Essa atenção à pessoa deve orientar também o uso da Inteligência Artificial. Não basta perguntar o que a tecnologia é capaz de fazer; é preciso discernir a serviço de quem ela está e se contribui para uma sociedade mais humana, justa e fraterna.
Os testemunhos missionários na Amazônia, a fidelidade do padre Hilário Passero à comunicação salesiana e a utilização do Boletim Salesiano como instrumento educativo confirmam que a missão nasce de um olhar atento e se concretiza no serviço. Comunicar, educar, acompanhar e evangelizar são diferentes expressões de uma mesma vocação: tornar visível o bem e ajudar as pessoas a reconhecerem a presença de Deus em sua história.
Que também nós façamos nossa a oração de Bartimeu: “Senhor, que eu veja!”. Que saibamos ver os jovens com esperança, as diferenças como oportunidades de encontro e cada pessoa como irmã. Assim, iluminados pelo Evangelho e inspirados por Dom Bosco, poderemos seguir Jesus pelo caminho e colaborar na construção de um mundo transformado pela força do amor.
P. Tarcizio Paulo Odelli, SDB
Diretor do Boletim Salesiano – Brasil
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