Esta entrevista com o P. Achille Loro Piana oferece um olhar profundo sobre seus quase 60 anos de serviço missionário, no Japão. A seguir, o texto organizado a partir das perguntas iniciais e do diálogo espontâneo realizado durante a entrevista.
Quer se apresentar?
Meu nome é P. Achille Loro Piana. E sou salesiano e missionário. Fiz o noviciado no Colle Dom Bosco entre 1962 e 1963. Sou italiano. Desde cedo senti e manifestei o desejo de servir como missionário num país com poucos cristãos. Esse desejo me levou à missão no Japão. Antes de chegar ao país, preparei-me estudando filosofia em Hong Kong, onde tive a oportunidade de aperfeiçoar meu inglês.
E o que o inspirou a escolher a vida missionária e, de modo especial, o Japão?
Eu desejava trabalhar num lugar onde o cristianismo fosse pouco conhecido. Na Itália, todos eram cristãos, e eu sentia que Deus me chamava a levar a Fé aonde ela era mais necessária. O Japão foi uma oportunidade para viver plenamente essa vocação.
Como seus familiares reagiram à sua decisão de partir para o Japão?
Meus pais, especialmente minha mãe, foram inicialmente contrários à decisão; mas, no fim, aceitaram, ao compreender que aquele era o caminho da minha missão. Lembro-me de que, quando voltei à Itália após atuar dez anos como sacerdote, minha mãe olhou para mim e disse: “Você não cresceu!”. Era sua maneira carinhosa de expressar o quanto havia sentido minha falta.
O que o senhor pode nos contar sobre seus anos de missão no Japão?
Cheguei ao Japão há 59 anos e desempenhei diversas funções. Comecei pelo Tirocínio e os Estudos de Teologia. Mais tarde, atuei na formação, criando um aspirantado (1974). Acompanhei muitos jovens promissores pelo caminho da vocação salesiana.
Durante 15 anos, servi na Paróquia Santa Elisabete George, em Tóquio, uma das mais belas que temos. Depois, trabalhei na Paróquia de Hamamatsu, que acolhe uma comunidade bastante diversificada, formada principalmente por brasileiros, filipinos, peruanos e um pequeno grupo de japoneses.
Hoje, aos 82 anos, sou Capelão das «Irmãs da Caridade de Jesus» (Grupo da FS), em Nagasaki. Celebro a Missa para elas e para as religiosas idosas que se encontram no hospital. Essa missão me permite dedicar mais tempo à oração, à meditação e ao trabalho de tradução, atividade que sempre realizei com grande paixão.
Quais foram os principais desafios de sua missão?
Adaptar-me à cultura e à língua japonesa foi um deles. Quando cheguei, não fui enviado a uma escola para aprender japonês; por isso, precisei estudar sozinho. Foi um caminho difícil, mas necessário para me integrar e servir da melhor maneira possível.
Outro grande desafio foi acompanhar a diminuição das vocações. Quando cheguei, havia 148 salesianos no Japão; hoje somos apenas 68, incluindo idosos e enfermos. Entretanto, acredito que Deus não julga pelos números, mas pela qualidade do nosso serviço.
Como o senhor descreveria sua relação com a cultura japonesa?
Sempre admirei a riqueza da tradição japonesa, marcada por costumes antigos e pelo respeito ao próximo. Contudo, um aspecto que percebo como menos presente nesse contexto é o conceito de perdão. Aprendi muito sobre isso com meu mentor, o P. Osamu Mizobe - um salesiano japonês que mais tarde se tornou Bispo - . Ele me ensinou a magnanimidade e a capacidade de acolher e perdoar – algo pouco normal no Japão.
Houve momentos particularmente significativos em sua missão?
Uma experiência que me marcou profundamente foi acompanhar um jovem japonês, Ciro, em seu caminho pelo rumo do sacerdócio. Quando o conheci, ele era universitário. Convidei-o a estudar o catecismo e, posteriormente, se tornou cristão. Com o passar do tempo, manifestou o desejo de ser sacerdote e trabalhar com os pobres.
Enfrentou muitas dificuldades, como estudar no Sudão e lutar contra a malária. Hoje está concluindo seus estudos de Teologia e Espiritualidade salesiana. Um dos momentos mais bonitos para mim foi celebrar meu 50º aniversário de sacerdócio na Itália com ele a meu lado como... Diácono. Foi uma grande alegria acompanhar seu crescimento espiritual.
Como sua visão sobre a fé e a missão mudou ao longo dos anos?
Minha compreensão da missão evoluiu. Já não vejo o missionário como alguém que leva a Fé de um país cristão para outro-não-cristão. Hoje compreendo a missão como uma obra de crescimento em qualidade, na qual até mesmo poucas pessoas podem fazer a diferença. Acredito que os maiores frutos da missão sejam a santidade e as vocações que surgem nos lugares onde a Fé é menos difundida.
Que conselho daria aos jovens que sentem o chamado missionário?
Sempre digo que a vida missionária exige sacrifícios. É preciso estar disposto a renunciar a muitas coisas, porque é justamente na perda que encontramos o caminho de Jesus. Ele alcançou a glória na cruz, ao entregar tudo. As motivações iniciais podem não ser plenamente autênticas, mas, com o tempo, devem se transformar num desejo mais profundo e espiritual.
Qual a sua mensagem para o mundo salesiano?
O apoio aos missionários é fundamental, tanto por meio da oração quanto pela ajuda concreta. Também precisamos reconhecer o valor das pequenas comunidades e dos missionários que vivem com entusiasmo sua vocação. A missão salesiana não se mede pelo número, mas pela paixão pelo Evangelho, pelo amor aos Jovens.
Como o senhor vê o futuro da missão salesiana no Japão?
Apesar das dificuldades, sou confiante. No próximo ano, celebraremos o Centenário da chegada dos Salesianos ao Japão. Esse momento nos recorda que, mesmo num contexto com poucos cristãos, a missão pode gerar frutos duradouros. É obra de Deus e confio que continuará a se desenvolver com força.
O P. Achille Loro Piana deixa um testemunho extraordinário, marcado por sabedoria, Fé e humanidade. Sua vida demonstra como o serviço missionário pode transformar não apenas as comunidades - às quais é dedicado - mas também os próprios missionários, enriquecendo-os com a Graça e o amor pelo Próximo.



