Na edição de agosto da editoria Pátio Vocacional: "Vinde e Vede", conversamos com o P. Sedney Manja, SDB, Vigário Inspetorial da Inspetoria São João Bosco (ISJB). Na entrevista, ele compartilha sua trajetória vocacional, marcada por experiências de fé, discernimento e confiança na ação de Deus, reflete sobre o significado de ser Salesiano Padre nos dias de hoje e deixa uma mensagem de esperança e coragem aos jovens que estão discernindo sua vocação.

Como nasceu o seu chamado para a vocação salesiana e quais foram os sinais de Deus ao longo dessa caminhada?

Meu chamado à vocação salesiana nasceu a partir do contato que tive com as Irmãs Ursulinas, na cidade de Resende (RJ), durante a Semana Missionária realizada em Canaã (MG), em 1998. Na ocasião, elas promoveram encontros vocacionais para os jovens, apresentando as diversas vocações presentes na Igreja: matrimonial, laical, missionária, sacerdotal e, de modo especial, a vocação à vida consagrada.

As inquietações vocacionais já estavam presentes em meu coração. Por isso, procurei uma das irmãs para conversar e perguntar como poderia responder ao chamado que sentia havia muito tempo. Foi então que ela me falou dos Salesianos de Dom Bosco e do Padre Roberto Modesto, SDB, responsável pelo acompanhamento vocacional salesiano.

A Irmã Luzia anotou meus dados e disse que os encaminharia ao Padre Roberto. Confesso que não imaginei que isso realmente aconteceria, mas, poucos dias depois, recebi um grande envelope branco timbrado com o nome dos Salesianos.

Dentro dele havia uma carta explicando o processo de acompanhamento vocacional, santinhos de Dom Bosco e de Nossa Senhora Auxiliadora, exemplares do Elo Salesiano e o livro Dom Bosco: uma biografia nova, de Terésio Bosco. A leitura dessa obra marcou profundamente minha caminhada. À medida que conhecia a história de Dom Bosco, seu amor pelos jovens, sua confiança na Providência de Deus e sua dedicação à missão educativa e evangelizadora, crescia em mim o desejo de seguir seus passos.

Ao concluir a leitura, tinha a convicção de que Deus me chamava a viver esse carisma na Congregação Salesiana. A vida de Dom Bosco tornou-se, para mim, um sinal concreto da vontade de Deus e uma confirmação do caminho vocacional que começava a percorrer.

Em seguida, iniciei o curso vocacional por correspondência, composto por 14 lições sobre a vocação cristã. Cada etapa era acompanhada de uma avaliação, enviada ao Padre Roberto.

Em 1999, fui convidado para participar do Estágio Vocacional, realizado durante o Carnaval, juntamente com um amigo e conterrâneo, Sebastião Lopes. Foi a oportunidade de conhecer mais de perto os Salesianos, seu estilo de vida e sua missão. Encantei-me com o ambiente, o espírito de família e a alegria vividos pelos salesianos e pelos aspirantes.

Ao final do estágio, recebi o convite para ingressar no Aspirantado São Francisco de Sales, em Barbacena (MG). Antes de responder, senti que precisava conversar com meus pais. Eu era o único filho homem que ainda ajudava meu pai no trabalho da lavoura, enquanto meus irmãos já haviam constituído suas famílias.

Quando compartilhei o convite com eles, recebi total apoio. Jamais esquecerei as palavras de meu pai: "Se essa é a vontade de Deus para você e é isso que o faz feliz, siga em frente."

Na manhã de uma quinta-feira da Quaresma, despedi-me de meus pais e irmãos e iniciei minha formação salesiana em Barbacena. Fui acolhido fraternalmente pelo Padre Geraldo Martins Lisboa, então diretor e formador do Aspirantado. Seu jeito simples, alegre e acolhedor ajudou-me a dar os primeiros passos com serenidade e confiança.

Naquele mesmo ano, iniciei o segundo ano do Ensino Médio no Colégio Salesiano e, desde então, percorri todas as etapas da formação salesiana com entusiasmo, procurando corresponder, a cada dia, ao chamado de Deus.

No Pré-Noviciado vivi um dos momentos mais difíceis da minha vida: a perda de meu pai, vítima de câncer. Não foi uma experiência fácil, mas encontrei força no apoio dos formadores e dos irmãos pré-noviços para seguir adiante.

Ao longo dessa caminhada, Deus manifestou sua presença por meio de muitos sinais. Sempre encontrei pessoas de fé que me incentivaram, orientaram e me ajudaram no discernimento vocacional. A convivência fraterna também foi essencial para meu crescimento humano e espiritual.

Outro sinal marcante foi perceber a transformação que Deus realizou em minha própria vida. Durante o Aspirantado e o Pré-Noviciado, eu era extremamente tímido e falava muito pouco. O Padre Silvério Ivo Gomes, formador naquela etapa, costumava brincar: "Sedney, eu quase não ouço a sua voz; você precisa falar mais."

Mais tarde, durante um encontro com as famílias, ele conheceu minha mãe e percebeu que ela também era muito reservada. Esse momento nos ajudou a compreender melhor minha história e minha personalidade.

Hoje, acredito profundamente que o salesiano que me tornei é fruto da graça de Deus, manifestada nas inúmeras pessoas e experiências que Ele colocou em meu caminho. A própria Congregação Salesiana foi e continua sendo um grande sinal da presença e da fidelidade de Deus em minha vida.

O que significa ser Salesiano Padre nos dias de hoje, especialmente junto às crianças, adolescentes e jovens?

Ser Salesiano Padre, para mim, significa seguir Jesus Cristo, o Bom Mestre e Bom Pastor, configurando minha vida à d'Ele, assim como fez Dom Bosco, nosso Pai e Mestre da juventude, que entregou toda a sua existência em favor dos jovens, especialmente dos mais pobres e abandonados.

Como filho de Dom Bosco, acredito que ser Salesiano Padre hoje é assumir o mesmo coração pastoral que marcou sua vida: um coração inteiramente dedicado a Deus e aos jovens.

Dom Bosco não deu um passo, não pronunciou uma palavra e não realizou nenhuma obra que não tivesse como finalidade a salvação da juventude. Inspirado por esse ideal, procuro viver meu ministério sacerdotal colocando minha vida a serviço das crianças, dos adolescentes e dos jovens, para que possam experimentar o amor de Cristo Bom Pastor e encontrar caminhos de esperança, fé e salvação.

Inspirado no carisma de Dom Bosco, qual mensagem o senhor deixaria para os jovens que estão discernindo sua vocação?

A mensagem que deixo aos jovens é que o verdadeiro protagonista da vocação é o próprio Deus. É Ele quem chama, conduz e acompanha cada pessoa na missão que lhe confia.

Ao longo da história, Deus chamou muitos homens e mulheres para colaborar na construção do seu Reino e continua chamando você também.

Não tenha medo de dizer "sim" ao chamado de Deus. Seja fiel, corajoso e generoso. Entregue sua vida com confiança Àquele que o chama, porque Deus nunca abandona aqueles que se colocam a serviço do seu projeto de amor.

Costumo dizer aos jovens uma frase que resume minha experiência vocacional: "Vocação acertada, pessoa feliz." Quando respondemos com generosidade ao chamado de Deus, encontramos o verdadeiro sentido da vida e experimentamos a alegria que somente Ele pode oferecer.

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