Um simpósio internacional de estudos sobre o último “queremos” do Papa Luciani: “Justizia e Pax ‘Proteger e promover a paz neste mundo conturbado’”. Promovido pela Fundação Vaticana João Paulo I e organizado pelo Comitê Científico, o evento reafirma a atualidade de sua mensagem. Na Pontifícia Universidade Gregoriana, reunir-se-ão estudiosos e estudantes, com a participação do presidente do Instituto da Enciclopédia Italiana Treccani Ossola e do cardeal Parolin, presidente da Fundação.

É o último dos seis “queremos” da mensagem Urbi et Orbi de João Paulo I – Albino Luciani, em 27 de agosto de 1978, no dia seguinte à sua eleição, o tema central do simpósio internacional: “João Paulo I: Iustizia e Pax ‘Proteger e promover a paz neste mundo conturbado’”. O evento, programado para o próximo dia 13 de outubro, é promovido pela Fundação Vaticana João Paulo I em colaboração com a Pontifícia Universidade Gregoriana e o Pontifício Comitê de Ciências Históricas, e será realizado na sede da universidade, na Praça da Pilotta, das 9h30 às 18h30.

Um “volumus”, destacou em um comunicado da Fundação Vaticana João Paulo I o cardeal secretário de Estado Pietro Parolin, que também é presidente da referida Fundação, que “nos leva a refletir sobre como essas questões de interesse histórico continuam sendo extremamente atuais e como sua mensagem é de extrema relevância”. De fato, ao relembrar as palavras do Pontífice recém-eleito, é impossível não perceber isso.

Queremos, por fim, apoiar todas as iniciativas boas e louváveis que possam proteger e promover a paz neste mundo conturbado: convocando à colaboração todos os justos, os bons, os honestos e os de coração reto, para que possam conter, dentro das nações, a violência cega que apenas destrói e semeia ruínas e lutos e, na vida internacional, possam conduzir os homens à compreensão mútua, à união de esforços que favoreçam o progresso social, erradiquem a fome do corpo e a ignorância do espírito e promovam o progresso dos povos menos abastados, mas ricos em energia e vontade.

O apoio aos acordos de paz de Camp David para a questão árabe-israelense

Retomando as afirmações de João Paulo I — ou seja, que nem o Papa nem a Santa Sé possuem “soluções milagrosas para os grandes problemas mundiais” —, o cardeal Parolin destacou que “o apoio à construção de uma paz possível, parte essencial de sua missão, foi o fio condutor dos trinta e quatro dias de seu pontificado”. Naquele mês, de fato – como é explicado –, houve duas circunstâncias em que a paz se tornou uma urgência: a controvérsia entre o Chile e a Argentina surgida em relação à soberania sobre as ilhas do Canal de Beagle, conflito que foi evitado graças à mediação da Santa Sé. A segunda foi o apoio às negociações de paz que, de 5 a 17 de setembro, reuniram em Camp David o presidente americano Jimmy Carter, o presidente egípcio Anwar al-Sadat e o primeiro-ministro israelense Menachem Begin. João Paulo I desempenhou um papel de forte impacto simbólico e diplomático justamente naquelas semanas de setembro que viram se concretizar o resultado positivo dos Acordos de Paz de Camp David, mediados pelo presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter.

“Proteger e promover a paz neste mundo conturbado”

O congresso, inaugurado com as saudações institucionais de Mark A. Lewis, SJ, reitor da Pontifícia Universidade Gregoriana; de Marek Inglot, SJ, presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas; de Carlo Ossola, presidente do Instituto da Enciclopédia Italiana Treccani; e do cardeal Pietro Parolin, será dividido em quatro sessões.

A primeira, que aborda a evolução da doutrina sobre a guerra e a paz por parte das Igrejas, é presidida pelo prefeito do Arquivo Apostólico Vaticano, Rocco Ronzani, e conta com a palestra de abertura do historiador Roberto Morozzo della Rocca, centrada no tema “As Igrejas cristãs e a evolução da doutrina sobre a guerra e a paz (1945-1978)”. À mídia vaticana, o historiador destacou a atenção de João Paulo I ao tema da paz e sua premente atualidade. “Hoje me parece que muitos não estão dispostos a promover a paz”, acrescentou, “enquanto o Papa Luciani foi uma testemunha relevante nesse sentido, que deve ser valorizada e lembrada. Não é preciso ser pacifista para desejar a paz; basta ser uma pessoa de bom senso que não queira ruínas, catástrofes e situações apocalípticas no mundo de hoje. João Paulo I — concluiu Morozzo della Rocca — foi um pacificador porque tinha a preocupação genuína de que o mundo vivesse em paz”.

Nessa mesma sessão, estão previstas as intervenções de Roberto Regoli, professor titular de História da Igreja na Pontifícia Universidade Gregoriana, que se concentrará em “A ação da diplomacia da Santa Sé”. A sessão será encerrada com a contribuição de Giovanni Vian, professor titular de História do Cristianismo e das Igrejas na Universidade Ca’ Foscari de Veneza, que abordará o tema “Justiça e paz no magistério de João Paulo I”.

“Dentro das nações” e “na vida internacional”

A segunda sessão da manhã, presidida pelo secretário do Pontifício Comitê de Ciências Históricas, Pierantonio Piatti, aborda, por sua vez, os contextos históricos em que João Paulo I desenvolveu sua ação em prol da paz ao longo de seu breve pontificado. A abrir a sessão, a intervenção do renomado historiador Mario Del Pero, professor de História Internacional no Centre d’Histoire da Sciences Po, em Paris. Sua contribuição concentra-se nos acordos de Camp David, de setembro de 1978, que representaram um momento crucial na história do Oriente Médio e da política norte-americana na região: “Os Estados Unidos e a busca por uma paz esquiva no Oriente Médio. Jimmy Carter e os acordos de Camp David”. Em seguida, a palestra de Gennaro Gervasio, professor de História e Instituições da África na Universidade Roma Tre, sobre “Anwar al-Sadat: da diplomacia de choque à paz separada”; e, para encerrar, a contribuição de Massimo De Giuseppe, professor titular de História Contemporânea na Universidade IULM de Milão: “O Conflito de Beagle. Entre ditaduras, transformações, crises e direitos humanos. A América Latina em 1978”.

É o diálogo com a historiadora Anna Foa, conhecida por seus estudos específicos sobre a história do judaísmo, e com Yassine Lafram, líder da União das Comunidades Islâmicas da Itália, que dá início à terceira sessão do Congresso, presidida por Mauro Mantovani, prefeito da Biblioteca Apostólica Vaticana. O diálogo intitula-se: “A guerra dos zelotes. Extremismo religioso e poder global”.  O tema da paz e da guerra é aqui abordado sob a perspectiva inter-religiosa e das tendências extremistas, considerando que, em 10 de setembro de 1978, João Paulo I havia falado longamente sobre a cúpula em andamento em Camp David para a solução do conflito árabe-israelense, dedicando, para seu sucesso, o Angelus dominical, no qual havia destacado como os três líderes das religiões cristã, judaica e muçulmana haviam solicitado expressamente aos povos que rezassem com eles “para que a paz e a justiça resultem dessas deliberações”. O diálogo, em mesa redonda, é moderado por Stefania Falasca, vice-presidente da Fundação Vaticana João Paulo I, e por Nicole Winfield, correspondente da Associated Press.

Em seguida, a palestra do eclesiólogo Dario Vitali, da Pontifícia Universidade Gregoriana, sobre “O Concílio Vaticano II e o novo paradigma da paz”. “O tema da paz – destacou ele à imprensa vaticana – tem, naturalmente, suas raízes nas Escrituras e na tradição da vida da Igreja; em particular, minha contribuição se concentrará no Concílio Vaticano II, pois na Constituição Pastoral sobre o Mundo Contemporâneo, Gaudium et spes, há o capítulo quinto da segunda parte que trata da promoção da paz e da solidariedade entre os povos. A referência será sobretudo a isso e à forma como o Concílio abordou esse tema”. Vitali ressaltou ainda que o magistério de João Paulo I é de grande atualidade. “A intervenção sobre os acontecimentos de Camp David não teria sido possível se não houvesse um magistério do Concílio que, ao se aproximar do mundo e superar as barreiras criadas ao longo da história, permitiu que a Igreja entrasse em um diálogo que acompanha a humanidade na busca por valores fundamentais. De fato, não se trata apenas de uma necessidade de evitar a guerra, mas de uma urgência de construir a paz”. Após Vitali, a palestra de Emília Hrabovec, professora titular de História na Universidade Comenius de Bratislava e membro do Pontifício Comitê de Ciências Históricas, especialista em história das relações entre a Santa Sé e os países do Leste, com uma apresentação sobre “Albino Luciani – João Paulo I, o comunismo e a Igreja Católica por trás da Cortina de Ferro”. Para encerrar a sessão, a palestra de Mauro Velati, centrada em João Paulo I e na dimensão internacional.

“Levar o mundo a uma paz mais estável, a uma cooperação mais leal”

A sessão de encerramento do Simpósio internacional de estudos contará, por fim, com a participação do presidente da Fundação Vaticana João Paulo I, o cardeal Pietro Parolin, em um diálogo com estudantes de diversas universidades do grupo interparlamentar “Jovens Universitários no Parlamento (Gup)” sobre o tema da paz. A Associação, criada para dar voz às novas gerações nos locais onde se tomam as decisões públicas, transforma o interesse acadêmico em participação ativa por meio de atividades de aprofundamento, diálogos com representantes institucionais e percursos de reflexão sobre os grandes temas contemporâneos, nos quais a formação universitária se integra à compreensão das instituições e das relações entre os povos. A moderação do encontro ficou a cargo de Flavia Tudini, da Universidade de Roma Tre, e de Vincenzo Varagona, presidente da União Católica da Imprensa Italiana (UCSI). Ao final, para fins de créditos de formação dos jornalistas, houve uma saudação da Associação “Artigo 21 Livres de…”.

As sessões e as respectivas intervenções serão precedidas pela exibição de um vídeo intitulado “Le carte della pace”, extraído do material contido no Arquivo Privado Albino Luciani (APAL), patrimônio da Fundação Vaticana João Paulo I.

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