Em uma sociedade marcada pela tecnologia e pelo acesso imediato à informação, o novo rapidamente cede lugar ao próximo. A cada dia, surgem novos nomes no cenário religioso: cantores, pregadores, missionários e influenciadores que encontram nas plataformas digitais novos espaços de evangelização. O microfone, antes restrito a poucos, tornou-se acessível a muitos. No palco físico ou virtual, multiplicam-se as vozes.
Mas nem sempre foi assim. Esse caminho está marcado por pessoas que, num passado não tão distante, resolveram arriscar e assumir as consequências que o pioneirismo exige.
Há seis décadas, um sacerdote começou a trilhar um desses caminhos. Iniciativas que hoje parecem corriqueiras, como abrir espaço para que jovens tocassem violão e cantassem na Santa Missa, podiam ser recebidas, naquele contexto, como uma heresia. Em uma fase de transformações na Igreja, marcado pelo Concílio Vaticano II, José Fernandes de Oliveira, mais conhecido como Pe. Zezinho, scj, compreendeu que seu ministério também seria chamado a dialogar com um novo tempo.
Anos depois, aquele período de mudanças ajuda a compreender parte do percurso que Pe. Zezinho, scj, construiu ao longo de seu ministério. O sacerdote completou 60 anos de sacerdócio nesta segunda-feira, 21 de setembro. O jubileu reúne diferentes capítulos de uma trajetória que passa pela música, pela catequese, pela comunicação e pela literatura.
Do Zezé ao seminarista
Mineiro de nascimento, José Fernandes de Oliveira deixou sua terra natal aos três anos de idade, quando sua família se mudou para o interior de São Paulo em busca de melhores condições de vida. Em Taubaté, cresceu a poucos metros do Convento Sagrado Coração de Jesus, conhecido como Conventinho.
Foi na convivência com os padres dehonianos que o desejo pelo sacerdócio começou a ganhar forma. Aos 12 anos, ingressou no Seminário Menor da Escola Apostólica Dehonista, em Lavras (MG).
Entre todos os lugares por onde passou durante o período de formação, Corupá, em Santa Catarina, ocupou um espaço particular em sua história. Foi ali, entre 1954 e 1959, que completou o ensino médio e viveu experiências que contribuíram para que José Fernandes se desprendesse do menino Zezé.
Ainda adolescente, o seminarista já demonstrava sensibilidade artística. Seu interesse pela música, porém, nem sempre encontrou espaço entre os formadores. Em determinado período, chegou a ser impedido de aprender a tocar instrumentos. Podia participar de atividades e apresentações, mas muitas vezes apenas nos bastidores.
Foi também nessa época que começou a escrever. Diante das restrições, encontrou uma maneira de continuar: criava pseudônimos e pedia a colegas que declamassem seus poemas. A música e a escrita, que naquele momento pareciam apenas inclinações pessoais, acabariam se tornando instrumentos centrais de seu ministério.
Um padre do Sagrado Coração de Jesus
Em 1963, José Fernandes foi enviado para Hales Corners, nos Estados Unidos, onde estudou Teologia e aprofundou seus conhecimentos em Comunicação e Psicologia.
Em 17 de junho de 1966, recebeu a ordenação diaconal pela imposição das mãos de dom William Cousins. Três meses depois, em 21 de setembro, foi ordenado sacerdote pelo mesmo bispo.
Para o ministério que iniciava, escolheu como lema: “Ajoelhei-me na consciência da minha pequenez, e o Senhor me ergueu pequeno, mas sacerdote para sempre”.
Sua ordenação ocorreu no ano em que o Concílio Vaticano II chegava ao fim. A Igreja atravessava um período de renovação, e Pe. Zezinho viveria seu ministério justamente nesse contexto de novas linguagens e novas formas de participação na vida eclesial.
Em 1967, retornou ao Brasil e foi destinado ao Santuário São Judas Tadeu, no Jabaquara, em São Paulo. Ali, dedicou-se especialmente aos jovens e às escolas, participando da criação da pastoral da juventude.
Foi nesse ambiente que seu modo de catequizar por meio da música, da arte e de uma linguagem próxima do cotidiano ganhou maior projeção.
O trabalho chamou a atenção da Ir. Maria Nogueira, então diretora da gravadora Paulinas. Veio o convite para uma gravação de teste. A partir dali, a música se tornaria uma das principais formas pelas quais o sacerdote comunicaria a fé.
Uma voz entre diferentes realidades
Sua produção musical percorre diferentes dimensões da experiência cristã. Há espaço para a espiritualidade, mas também para questões sociais e fraternidade. Canções como “Estou Pensando em Deus” e “Oração pela Família” convivem, em seu repertório, com composições como “Por um Pedaço de Pão” e “Mataram Mais um Irmão”.
Essa diversidade também fez com que, ao longo das décadas, suas posições fossem interpretadas de maneiras distintas. Pe. Zezinho chegou a ser alvo de classificações políticas opostas e, em determinado período, permaneceu na Espanha após ser perseguido pela ditadura ao defender o direito dos jovens ao voto.
Em meio às diferentes interpretações, uma referência marca sua trajetória: a Igreja em diálogo com a realidade do mundo, como expressa a Gaudium et Spes, constituição pastoral do Concílio Vaticano II.
Para Pe. Zezinho, comunicar a fé também significa cantar as alegrias e as dores do povo.
O retorno às origens
Aos 85 anos, o sacerdote vive atualmente no Conventinho, em Taubaté, o mesmo endereço que marcou sua infância e o despertar de sua vocação junto aos dehonianos. Depois de décadas entre viagens, palcos, estúdios, livros e programas de TV e rádio, a rotina tornou-se mais tranquila.
A atividade, no entanto, permanece: Pe. Zezinho continua compondo, escrevendo e gravando. Ao longo de 60 anos de sacerdócio, o que marca sua trajetória não é apenas o volume da obra, com cerca de 1.800 canções e mais de 120 livros, mas a forma simples como essa mensagem chegou às pessoas. Seja em orações feitas em família, em celebrações ou em salas de aula, seu repertório traduziu a fé em linguagem cotidiana e acompanhou diferentes gerações.
Ao falar sobre o envelhecimento, o sacerdote recorre à imagem do sol poente:
“Envelhecer é a fase do sol poente. A aurora é bonita, mas o poente também é rico de experiências”

