A Inteligência Artificial chegou às salas de aula, às empresas, às famílias e às obras sociais. Em pouco tempo, passou a ocupar um espaço semelhante ao que a internet ocupou há algumas décadas: todos falam sobre ela e quase todos concordam que ela transforma o presente e transformará o futuro.
Mas, antes de discutirmos o impacto da Inteligência Artificial sobre as crianças, talvez seja necessário fazer uma pergunta: De quais crianças estamos falando?
Frequentemente ouvimos afirmações como: "as crianças já usam IA", "os alunos estão fazendo trabalhos com ChatGPT" ou "a nova geração nasceu conectada". De fato, essas afirmações estão corretas, mas elas se aplicam igualmente a todas as crianças?
O Brasil é um país marcado por múltiplas infâncias. Existem crianças que convivem diariamente com computadores, tablets e assistentes virtuais. Existem crianças que acessam a internet principalmente pelo celular da família. Existem aquelas que utilizam ferramentas de Inteligência Artificial para estudar, criar imagens ou esclarecer dúvidas. E existem aquelas que ainda encontram barreiras para acessar recursos digitais de forma contínua e qualificada. Todas essas crianças fazem parte da mesma geração, mas vivem experiências bem diferentes.
Por isso, quando falamos sobre Inteligência Artificial, talvez seja importante evitar generalizações. Não porque algumas crianças estejam "atrasadas" em relação a outras, mas porque as condições de acesso, aprendizagem e uso da tecnologia não são iguais para todos. Aliás, essa não é uma discussão nova.
Quando a internet se popularizou, falávamos sobre inclusão digital. Hoje, o desafio parece mais complexo. O acesso continua importante, mas já não é suficiente. É preciso desenvolver competências para utilizar a tecnologia de forma crítica, ética, criativa e segura. Nesse contexto, surge uma segunda pergunta: De qual Inteligência Artificial estamos falando?
Muitas vezes tratamos a IA como uma tecnologia única, mas ela se manifesta de formas muito diferentes no cotidiano das crianças. Está presente nos aplicativos de vídeo, nos jogos digitais, nos mecanismos de busca, nos assistentes virtuais, nas plataformas educacionais e nos sistemas de recomendação que definem grande parte do conteúdo consumido diariamente. E nem todas essas experiências produzem os mesmos efeitos.
Uma criança que utiliza a Inteligência Artificial para pesquisar, aprender ou criar está vivendo uma experiência muito diferente daquela que apenas recebe conteúdos selecionados por algoritmos. Um adolescente que utiliza IA para explorar carreiras, desenvolver habilidades ou construir um projeto pessoal está diante de possibilidades distintas daquele que a utiliza apenas para reproduzir respostas prontas. Por isso, talvez o desafio não seja apenas ampliar o acesso à Inteligência Artificial, mas compreender quais usos estamos incentivando.
Estamos formando crianças capazes de criar, aprender, pesquisar e resolver problemas com essas ferramentas? Ou apenas consumidores passivos de conteúdos produzidos e organizados por algoritmos?
Essa reflexão nos conduz a uma terceira pergunta, talvez a mais importante de todas: Para que estamos usando a Inteligência Artificial?
Quando especialistas discutem se as crianças estão utilizando IA para fazer deveres de casa, produzir trabalhos escolares ou organizar rotinas de estudo, vale lembrar que a realidade brasileira é diversa. Em muitos contextos, essas já são questões presentes no cotidiano. Em outros, os desafios continuam sendo garantir acesso de qualidade à tecnologia, fortalecer a aprendizagem básica e ampliar oportunidades educativas. Não se trata de afirmar que algumas crianças vivem "no futuro" e outras "no passado". Trata-se de reconhecer que os pontos de partida não são os mesmos e que as transformações tecnológicas chegam aos territórios de maneiras diferentes.
Talvez estejamos diante de uma nova forma de desigualdade: não apenas entre quem tem ou não acesso à tecnologia, mas entre quem consegue transformá-la em oportunidade de crescimento e quem permanece apenas como usuário passivo de seus recursos. Para nós, salesianos, essa reflexão possui um significado especial.
Dom Bosco viveu em um período de profundas transformações sociais. O crescimento das cidades, as mudanças no mundo do trabalho e as novas formas de exclusão exigiam respostas educativas inovadoras. Sua grande contribuição não foi apenas acompanhar as mudanças de seu tempo, mas perguntar constantemente quem corria o risco de ser deixado para trás. Talvez essa seja também uma pergunta para os nossos dias.
Quem está participando das oportunidades abertas pela Inteligência Artificial?
Quem está sendo preparado para utilizá-la de forma crítica e responsável?
Quem está desenvolvendo competências para viver e trabalhar em uma sociedade cada vez mais mediada por tecnologias inteligentes?
A resposta não depende apenas das ferramentas disponíveis, mas da presença de educadores, famílias e comunidades capazes de acompanhar crianças e adolescentes nesse processo. Afinal, a missão educativa nunca consistiu apenas em ensinar a utilizar instrumentos. Consiste em ajudar cada criança e cada jovem a compreender o mundo, interpretar a realidade, fazer escolhas conscientes e construir um projeto de vida.
A Inteligência Artificial certamente transformará muitas coisas. Mas continuará sendo indispensável aquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir: a presença humana que acolhe, orienta, inspira e acredita no potencial de cada criança. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja se as crianças utilizarão Inteligência Artificial. A pergunta é se conseguiremos garantir que todas elas tenham oportunidades reais de compreender, questionar e fazer bom uso dessa tecnologia.
Porque, antes de discutir o futuro da Inteligência Artificial, continuamos diante do mesmo desafio educativo que inspirou Dom Bosco: olhar para cada criança, compreender sua realidade e garantir que nenhuma fique para trás.


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