Aos 96 anos, o P. Hilário Passero continua sendo um pilar silencioso da Agência de Informação Salesiana e o membro mais idoso da Comunidade da Sede Central Salesiana. Desde sua chegada a Roma, em 8 de setembro de 2000, dedicou-se com fidelidade à tradução diária das notícias da Congregação, oferecendo mais de 26 anos de serviço ininterrupto.
Com cuidado meticuloso, profunda humildade e constante alegria, traduziu dezenas de milhares de artigos, contribuindo para levar a voz da Missão salesiana ao mundo de língua portuguesa. Sua vida é testemunho de perseverança, profissionalismo e amor pela Congregação. Quando solicitado a resumir, numa única frase, seus anos na ANS, ele responde simplesmente: “Eu os repetiria todos!”.
Eis uma rara entrevista que destaca seus sentimentos mais profundos e a riqueza de seus 26 anos de serviço.
1. Quando e como você chegou à ANS, do Brasil para Roma?
- Depois de – praticamente – 15 anos de trabalho em Casas de Formação (no Estado de São Paulo, Brasil); após 10 anos na Editora e no Boletim Salesiano para o Brasil (id.); após 10 anos na produção de audiovisuais (em Porto Alegre-RS), durante os quais (em 1983) adoeci de SGB – Síndrome de Guillain-Barré (Polineurite Periférica Virótica); após outros 10 anos na editora, colaborando no Boletim Salesiano – o Regional da América Cone Sul, o boníssimo P. Helvécio Baruffi, me acolheu como seu secretário, na Casa Geral, na Pisana, aonde cheguei às 13h40 do dia 8 de setembro de 2000.
2. Como o jornalismo entrou em sua vida salesiana? Quais são suas experiências?
- Entrou por meio do Boletim Salesiano para o Brasil, do qual tive que cuidar de 1974 a 1979. Quase tudo surgiu da necessidade (ler outros Boletins Salesianos; fazer quatro minicursos de fotografia em São Paulo-SP; curso de jornalismo na ‘Pontifícia Universidade Católica’ do Rio Grande do Sul -FAMECOS, em Porto Alegre.
3. Quantos artigos o senhor acha ter traduzido, aproximadamente, nesses 26 anos?
- Entre longos, normais e curtos (ultimamente tem havido mais revisão do que tradução...), pode-se chegar a cerca de 45.000/50.000 “itens” [150/160 por mês...]. Que acha?
4. Entre os tantos artigos traduzidos, há algum que tenha ficado particularmente no seu coração?
- Eu aprecio todos os artigos “de coração”; mas aqueles que “me partem o coração” são os que tratam de guerras! (O que o Senhor Jesus dirá aos responsáveis, no Dia do Juízo?)
5. O senhor tem 96 anos e continua trabalhando todos os dias com grande empenho. A Sr. não sente cansaço?
- Um pouco, sim: mas só... durante o trabalho: depois... passa!
6. Muitos dizem que o Sr. é muito meticuloso na tradução. De onde vem essa sua atenção?
- Não vamos exagerar! Mas a FS, e cada um de seus membros, merece respeito. E isso também faz parte da nossa missão de educadores: na de dar sempre o melhor de si! – Entrentanto e desde que me conheço, jamais consegui — principalmente na escola — viver... distraído!
7. Sendo brasileiro, o que significa para o Sr. traduzir também a cultura e a sensibilidade da língua portuguesa?
- Para mim, modestamente, significa buscar o equilíbrio e o bom senso. Fazer-se entender e... ler! Além disso, por que não valorizar as pessoas e seus dons? Entre os muitos dons — que Deus nos concedeu -sobretudo aos brasileiros- por meio de Portugal — há três: a religião católica, o vasto território e a língua lusitana. Há que respeitar a todos, a começar pelo conhecimento da Língua Nacional. Manter a bandeira hasteada e sempre seguir em frente faz bem a todos!
8. O senhor já teve que lidar com uma tradução delicada que exigiu discernimento?
- Não me lembro. Mas é melhor não falar disso, mesmo porque, nesse caso, o tradutor é uma espécie de secretário: e o ‘secretário’ deve manter o... ‘segredo’!
9. Apesar das evoluções tecnológicas, o que permaneceu inalterado no seu trabalho?
- Tudo e nada. Continua a vontade de fazer bem — e melhorar — as coisas! Caso contrário, não haveria uma verdadeira evolução. O “cresçam e se multipliquem” dito pelo Senhor Deus, não se refere somente à biologia.
10. Nesses 25 anos, viu a ANS crescer e se transformar. Quais mudanças mais o impressionaram?
- A ANS reflete a vida vivida pela Congregação: e vi a Congregação não correr, mas voar, para se adaptar e responder à Missão! Para mim, essa foi a mudança mais notável e progressiva que ocorreu na ANS, especialmente neste último período. Mas todo período prepara o seguinte!
11. A Sr. possui um grande conhecimento da Congregação Salesiana, pois como tradutor vê e lê em profundidade todas as notícias em língua portuguesa. O que esse conhecimento lhe diz?
- Se entendi bem a pergunta — aqui seria preciso estar nas Inspetorias: verificar se os Coirmãos, e a FS globalmente, leem a ANS! “Natura non facit saltus”: a cultura — soma de valores que aperfeiçoam a pessoa humana (caso contrário, não seria cultura) — cresce “pari passu” com o correspondente crescimento dos valores na Pessoa! Se não houvesse esse interesse pela vida da própria Congregação – também -e antes de tudo- por meio do seu noticiário –, a pergunta se tornaria real e delicadamente trágica. “Ninguém quer o que não conhece”, diz a nossa filosofia perene.
12. Aos 96 anos – o que é uma grande graça, considerando seu estilo de trabalho e de vida –, qual é o segredo de sua saúde e de sua energia?
- Todos já sabem que nasci para morrer logo (alguns dias depois). Sobrevivi! – Aos 53 anos, fui acometido por aquela... síndrome. Nessa época, tive que fazer muito exercício físico – sobretudo, nadar até 4 horas por dia – e, só após 9 meses, pude voltar ao trabalho! Renasci! – Dizem, porém, que “para viver muito, é preciso ser doente”. Mas acima de tudo – e fundamentalmente – “é preciso não morrer antes”! E isso è Misericórdia e Bondade de Deus!
13. ‘Você’ é conhecido como uma pessoa alegre, que adora sorrir e fazer piadas. Qual a importância do humor em sua vida?
- É coisa de família! Ouvi nossos vizinhos - no campo - dizerem: “Esses aí, poderiam ter montado um... circo!” – de tanto que brincávamos, ríamos e cantávamos em família. Meu pai também cantava como “Baixo” no Coro da Paróquia! Mas não é que nossas vozes fossem todas, todas, celestiais!
14. Dizem também que V. adora a virtude da humildade. Por que é ela tão importante para o Sr.? Como surgiu sua vocação salesiana?
- Conheci um bom Confrade que dizia: “Eu sou o mais humilde de todos: e nisso – e disso me orgulho! – ninguém me supera!”. Na minha ‘opinião’, é exatamente assim: «O que somos, ou temos, que não nos tenha sido dado – generosamente – pelo nosso bom Deus?!». Há um belo dito latino que diz: «Homo humus. Fama fumus. Finis cinis!».
- Quanto ao fato de ser salesiano, meu ‘paesello’ — nascido em 1876, em Ascurra-SC, Brasil — contava com a assistência religiosa dos Franciscanos, quase todos alemães. Depois o Sr. Bispo – Ex-Aluno Salesiano – solicitou padres italianos; chegaram em 1912; e os Salesianos em 1916. Nasci em 1930; e já me sentia... em casa: porque tudo já era salesiano. Desde a Paróquia até o ‘Colégio São Paulo’!... Meu irmão não pôde ir para o aspirantado na cidade de São Paulo [distante quatro dias de viagem]: não pôde ir por causa da “febre amarela”. Daí em diante, ele cravou os olhos em mim e, vários anos depois – em 10 de janeiro de 1943 – me “mandou” em seu lugar. E é por isso que ainda estou “aqui”.
15. Você tem um gosto especial pela fotografia. Como surgiu essa paixão?
- Por... necessidade! Em Lavrinhas (aspirantado), como conselheiro, eu tinha que fazer a crônica da Casa. O Inspetor, P. José F. Stringari, de querida memória, me deu uma bela câmera (que, numa noite de sábado, um ladrão me roubou, levando tanto a câmera quanto todas as fotos para a Crônica...).
- Mais tarde, na “Editora”, me encarregaram de editar o Boletim Salesiano; e eu precisava, necessariamente, saber tirar alguma foto! Foi então que dediquei as noites - de quatro semanas - a aprender a fotografar com um apaixonado por fotografia.
- Mais tarde ainda, pude fazer no Recife, com o P. Segneri SJ, um Curso [de um mês] sobre Imagem (fotografia, revista, cinema, etc.), de segunda a sábado, e praticar durante quatro domingos.
- Por fim, a fotografia voltou a aparecer — por um semestre — no Curso de Jornalismo, “Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul” (PUC-RS), dos Irmãos Maristas.
16. Como o senhor interpreta o jornalismo à luz da missão salesiana?
- À luz da missão, interpreto-o, para os Salesianos, como uma necessidade urgente de encontrar uma maneira de chegar aos jovens, inclusive em grande escala. Como transformar a IA – que é apenas um “meio” – num instrumento ético de instrução, de formação e, sobretudo, de salvação, na realidade do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja, em meio às tantas Sociedades secularizadas do Mundo?
17. Na sua opinião, quais valores nunca deveriam faltar no jornalismo salesiano?
- Limito-me ao nível das ferramentas utilizadas na INFOANS. – Na minha opinião – agora que uma nova era se iniciou na CS – nunca deveria faltar um artigo – o primeiro de cada dia – sobre formação em comunicação. É isso que nossa Missão como Educadores Salesianos dos Jovens está a exigir de nós! Há que “dominar” essa tal de IA! – Mas nosso jornalismo deve continuar cristalino, elementar, católico, baseado no Magistério da Igreja, inspirador, motivador, otimista, sem medos. Mostrar o bem não ofende ninguém.
18. Que sonhos nutre para o futuro da ANS?
- Cada Setor do Conselho tem um programa que deriva do Reitor-Mor e do Capítulo Geral. Por isso, cito apenas um sonho: que o Setor consiga que – em todas as Inspetorias – todos os Coirmãos possam ter acesso “ao melhor” das notícias salesianas de ponta, publicadas diariamente na ANS e... nos Noticiários.
19. Que mensagem o senhor deseja deixar aos salesianos jovens chamados à Comunicação?
- Direi que “Roma non uno die aedificata est” [Roma não se fez num dia]. Nada se faz de improviso: mas, se todos – juntos – nos empenharmos ao máximo, tudo, no final, nos ajudará a crescer! “Cresceremos caminhando!”.
20. Se tivesse que resumir seus 25 anos na ANS em uma única frase, qual seria?
- Antes de dizer isso, gostaria de agradecer aos cinco Conselheiros do Setor que tive como Superiores; aos quatro Diretores da ANS; a todos os membros da Equipe de CS – tanto Coirmãos quanto Colaboradores, quer presentes quer ausentes. A todos eles – através do P. Fábio, do P. Fidel, do P. Pedro e do P. Harris, que ora nos deixa – gostaria de dizer, no mínimo «UM GIGÂNTICO MUITO OBRIGADO!».
E se tivesse que resumir meus 26 anos, na ANS, numa única frase, eu diria: “ÒMNIA ÌTERUM FÀCEREM!” – EU FARIA TUDO DE NOVO.



