A perenidade da educação católica, em um ambiente mais competitivo e orientado por resultados, depende cada vez mais da capacidade das instituições de alinhar identidade, proposta de valor e profissionalização da gestão. A transformação do setor, marcada por maior pressão por desempenho acadêmico, avanço de grandes grupos privados e mudanças no perfil das famílias, reposiciona os critérios de competitividade.

Essa leitura orientou o debate de abertura do Fórum Nacional de Educação Católica e Assembleia Geral Ordinária 2026, promovido pela Associação Nacional de Educação Católica do Brasil. Com o tema “Ver além do hoje: identidade e missão a serviço da perenidade da educação católica”, a reflexão foi conduzida por Pe. Charles Lamartine, vice-presidente da ANEC, e Maurício Zanforlin, que lidera o Grupo Marista desde 2023.

Ao abrir a conferência inaugural, Padre Charles Lamartine destacou a necessidade de a educação católica romper com a lógica limitada do cotidiano e assumir uma visão mais ampla e estratégica. Segundo ele, o desafio central é “ver além do hoje”, superando a repetição que muitas vezes impede novas perspectivas. “O cotidiano, por si só, não nos basta. Nós queremos o sonho, o futuro, ousar mais”, afirmou, ao defender uma educação que vá além das demandas imediatas.

O sacerdote explicou que essa visão exige um olhar multidimensional, capaz de integrar passado, presente e futuro. Ao tratar da identidade e missão da educação católica, ele ressaltou que essa construção passa necessariamente pela compreensão das origens, enraizadas no mandato missionário de Cristo. “A missão de educar já está presente desde o início da Igreja, como parte da sua ação evangelizadora”, pontuou.

Padre Charles também chamou atenção para a necessidade de alinhar missão e gestão, destacando que a sustentabilidade das instituições depende dessa integração. Segundo ele, pensar a perenidade das escolas e universidades católicas exige unir propósito, organização e visão de futuro. Nesse contexto, reforçou que a evangelização não é um elemento acessório, mas constitutivo da identidade dessas instituições. “Quando nasce uma escola católica, ela não surge apenas para oferecer ensino. Evangelizar faz parte da sua própria natureza”, concluiu.

O ponto de partida é um cenário amplo. Na educação básica, o Brasil reúne mais de 42 milhões de estudantes, com participação minoritária da rede privada. As instituições confessionais católicas concentram cerca de 775 mil alunos em mais de 1,3 mil escolas . No ensino superior, a lógica se inverte: a rede privada responde por quase 80% das matrículas, elevando a concorrência.

Segundo Maurício Zanforlin, tradição, reputação e propósito seguem como ativos relevantes, mas já não sustentam sozinhos a competitividade. A crescente valorização de indicadores objetivos, como desempenho acadêmico, exige que as instituições tornem sua proposta de valor mais clara e perceptível para as famílias.

Nesse contexto, a comunicação da identidade confessional ganha centralidade. Segundo o executivo, não basta ter um posicionamento bem definido, é necessário traduzi-lo de forma compreensível em um ambiente mais plural, conectando valores a resultados concretos.

A resposta passa pela profissionalização. A adoção de práticas estruturadas de governança, com transparência, gestão de riscos e visão de longo prazo,  é apontada como condição para a sustentabilidade . Segundo Zanforlin, a perenidade está diretamente associada à capacidade de execução, disciplina organizacional e uso consistente de indicadores.

A dinâmica do setor também é impactada por movimentos como a consolidação de grandes grupos, o avanço das edtechs e a expansão do ensino híbrido. No ensino superior, o ensino a distância já supera o presencial, exigindo adaptação dos modelos de oferta .

Tecnologia e dados, nesse cenário, deixam de ser diferenciais. Segundo o executivo, o uso de inteligência artificial e análise preditiva tende a ampliar a eficiência e permitir a antecipação de riscos, como evasão e queda de desempenho.

A discussão sobre perenidade também amplia o conceito de valor. Além da sustentabilidade financeira, entram em jogo fatores como formação integral, qualidade acadêmica, impacto social e fidelidade à missão institucional .

Apesar das pressões, instituições católicas mantêm desempenho acadêmico superior e maior taxa de permanência e conclusão, além de presença relevante entre as principais universidades privadas do país . A tendência, segundo Maurício, é que a perenidade esteja cada vez mais associada à clareza de posicionamento, à eficiência de gestão e à capacidade de comunicar valor de forma consistente, equilibrando identidade e adaptação.

Fonte: ANEC

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