Entre 2020 e 2025, a Inspetoria São João Bosco da Rede Salesiana Brasil transformou o ensino de produção textual. Por meio da padronização curricular, da parceria estratégica com a Plataforma Redigir e da gestão baseada em evidências, a rede elevou a proficiência média de milhares de estudantes. O case demonstra que equidade e excelência são objetivos complementares quando há compromisso institucional, metodologia baseada em dados e ferramentas adequadas para personalização em escala.
O Desafio de uma Rede
Em 2019, a Inspetoria São João Bosco (ISJB) da Rede Salesiana Brasil iniciou um processo de transformação educacional que se tornaria referência em gestão por resultados no ensino de produção textual. Com 11 escolas distribuídas por diferentes estados do país, cada uma com sua própria realidade socioeconômica, a ISJB enfrentava um desafio comum a muitas redes de ensino: garantir que todos os estudantes, independentemente da unidade em que se encontrassem, tivessem as mesmas oportunidades de desenvolvimento da escrita.
Paulo Rogedo, Gerente de Escolas da ISJB, relembra: "Quando a gente chegou, a encomenda era atualizar o projeto político-pedagógico-pastoral e desenvolver uma padronização de matriz que fizesse com que a Inspetoria pudesse sonhar com uma melhoria acadêmica." O diagnóstico inicial revelou disparidades significativas no desempenho das unidades, comprometendo a missão educacional da rede alinhada aos valores do Sistema Preventivo de Dom Bosco.
Diante desse contexto, a equipe pedagógica da ISJB iniciou um trabalho meticuloso de mapeamento. Os dados de 2020 estabeleceram a linha de base que orientaria toda a estratégia de transformação nos anos seguintes.
Com escolas que à época apresentavam matrizes discrepantes entre si, o desafio inicial era superar a desigualdade entre as unidades da própria rede. Algumas escolas investiam significativamente em Redação, ao passo que outras careciam até mesmo de carga horária adequada para a disciplina. Para a excelência, era preciso, primeiro, garantir igualdade de condições. A estratégia foi construída sobre quatro pilares fundamentais:
Padronização da Matriz Curricular
A primeira decisão estratégica foi estabelecer uma carga horária mínima para produção de texto em todas as unidades, independentemente do modelo pedagógico específico de cada escola.
Escolha de Parceiro Estratégico
Com a matriz padronizada, a ISJB precisava de uma ferramenta que permitisse personalização do ensino, acompanhamento longitudinal e geração de dados consistentes para tomada de decisão. A parceria com a Redigir, única Plataforma Adaptativa para ensino de escrita do Brasil, começou oficialmente em 2020, marcando o início de uma transformação sistêmica. "A gente escolheu a Redigir não só pelo trabalho ou pelo conceito proposto, mas também pela possibilidade de acompanharmos tudo isso de uma maneira que não existia no mercado", conta Rogedo.
Estabelecimento de Metas Ambiciosas
Com professores e gestores de todas as unidades, a ISJB construiu colaborativamente suas metas, que, entre outros aspectos, incluíam objetivos como 90% dos alunos com aproveitamento acima de 70% e concentração significativa de estudantes nas faixas de 80% a 90%.
Gestão da Mudança Cultural
A implementação da ferramenta não se deu sem resistências. Paulo relembra: "No início não era fácil. Tinha gente que dizia que não precisava disso. ‘Eu faço do meu jeito...'" A mudança de mentalidade vinha com o tempo, a partir dos próprios dados, que começavam a demonstrar os benefícios dessa abordagem mais sistematizada, baseada em evidências.
Cinco Anos de Transformação
Entre 2020 e 2025, a ISJB percorreu um caminho de construção sistemática de resultados, marcado por ajustes constantes, celebração de conquistas e aprendizados que transformaram resistências em engajamento. No conjunto, os dados apontam para o efeito cumulativo do trabalho iniciado no Fundamental II. A consistência deste segmento em patamares acima de 80% cria uma base sólida para o desenvolvimento no Ensino Médio, quando o foco se volta para gêneros mais complexos e para a preparação para o ENEM.
Paulo celebra: "Eu ter 90% do meu público acima de 70% de aproveitamento é maravilhoso! E todo mundo que estava acima de 70 foi para patamares acima de 80 e 90." Esse resultado histórico demonstra que a estratégia da equidade funcionou, visto que todos os estudantes avançaram, não apenas um pequeno grupo.
A comparação entre duas unidades escolares da Inspetoria com perfis socioeconômicos distintos prova o impacto de uma estratégia que valoriza a equidade. De um lado, em azul, está representada a evolução da média de uma unidade de perfil socioeconômico de classe média/alta; em verde, a evolução da média de uma unidade de perfil socioeconômico em situação de vulnerabilidade, que apresentou o maior crescimento relativo da rede.
Este resultado demonstra que a igualdade de oportunidades pedagógicas pode, de fato, reduzir disparidades históricas, sem comprometer o desenvolvimento daqueles que já partem de uma base mais privilegiada. "Aquele aluno que em tese é mais desprivilegiado no sentido socioeconômico conseguiu avançar e chegar na qualidade que aquele aluno privilegiado tem", comenta Rogedo.
A jornada de cinco anos da ISJB oferece aprendizados valiosos para outras redes de ensino que buscam conciliar equidade e excelência em seus processos educacionais.
A equidade precede a excelência
A primeira e mais importante lição é que não há excelência sustentável sem equidade. A decisão de padronizar a carga horária mínima antes de buscar resultados extraordinários foi fundamental para o sucesso da estratégia. "A equidade veio, mas primeiro veio a possibilidade de ter a igualdade", resume Rogedo.
Dados são poderosos quando são públicos
A transparência radical na divulgação dos dados transformou resistências em engajamento. "Eu sempre acreditei muito no fato de que dado bom é dado público. A informação precisa ser disseminada mesmo", afirma Rogedo. Esta abordagem criou uma cultura de responsabilização coletiva e aprendizado mútuo entre as unidades.
Mudança cultural exige tempo e evidências
A resistência inicial dos professores era compreensível e foi vencida não por imposição, mas por demonstração prática dos benefícios. O tempo foi aliado fundamental na construção da confiança no processo.
A experiência da Inspetoria São João Bosco nos últimos cinco anos oferece um modelo replicável para redes de ensino que buscam conciliar equidade e excelência. A transformação não foi acidental nem milagrosa: foi o resultado de decisões estratégicas fundamentadas em dados, compromisso institucional de longo prazo e escolha de ferramentas adequadas para personalização em escala. Os pilares que sustentaram a transformação da ISJB podem ser sistematizados da seguinte forma:
- Diagnóstico rigoroso da situação inicial com dados objetivos que revelaram não apenas o desempenho médio, mas também as disparidades entre unidades;
- Padronização de condições mínimas antes de buscar diferenciação, garantindo que todos os estudantes tivessem as mesmas oportunidades de base;
- Escolha de parceiros tecnológicos que permitissem personalização e geração de evidências para tomada de decisão;
- Metas ambiciosas, mas factíveis, construídas colaborativamente com professores e gestores de todas as unidades;
- Gestão transparente de dados como ferramenta de engajamento e não de controle punitivo;
- Compromisso de longo prazo com acompanhamento sistemático, reconhecendo que transformações profundas exigem tempo;
- Celebração de resultados como forma de consolidar a cultura de excelência e reconhecer os esforços coletivos.
Mais do que números impressionantes, a jornada da ISJB representa uma prova de conceito de que é possível transformar sistemas educacionais complexos quando há liderança comprometida com a missão institucional, metodologia baseada em evidências, ferramentas adequadas para escalar práticas efetivas e respeito pelo ritmo de mudança cultural das equipes.
Em um país marcado por profundas desigualdades educacionais, a experiência da ISJB ilumina um caminho possível: aquele em que todos os estudantes, independentemente de suas origens, têm acesso a oportunidades pedagógicas que lhes permitam desenvolver plenamente seu potencial.
O desafio que se coloca agora, tanto para a ISJB quanto para o campo educacional brasileiro como um todo, é como escalar essas práticas exitosas, mantendo o compromisso com a equidade em paralelo à busca por patamares ainda mais elevados de excelência. A jornada continua, mas as lições já aprendidas oferecem bússola e esperança para quem se compromete com uma educação que seja, ao mesmo tempo, justa e excelente. Paulo finaliza: "Eu tenho muito a agradecer a parceria. Espero que a gente trilhe esse caminho aí por muitos anos."


