A MENSAGEM DO REITOR-MOR, Pe. Fábio Attard
Habitados por Deus, como Maria, vemo-nos a nós mesmos como chamados e convidados
Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se a toda a pressa (Lc 1,39). Poucas palavras, mas cheias de significado. Nestes gestos simples e decisivos revela-se a estrutura interior de um coração que deixou que Deus o habitasse de verdade. A partida de Maria não é uma partida qualquer: é a resposta de uma vida recolhida, de uma alma que, por ter aprendido a ouvir e a discernir, chega depois a responder. Maria viveu a experiência da anunciação. Não se fica a matutar naquilo que acaba de lhe acontecer. Maria não se fecha na intimidade da própria experiência, extraordinária e profunda, guardando-a para si. Pelo contrário, deixa-se plasmar e guiar pela Palavra. E põe-se a caminho ao encontro do outro.
O movimento de Maria é um movimento espiritual: acolheu o Verbo; e, agora, é o Verbo que habita nela, que a orienta para o próximo. Como consequência de se sentir amado por Deus, quem ama verdadeiramente esquece-se de si mesmo e põe-se ao serviço do próximo. Maria ensina-nos que a disponibilidade do coração não é uma virtude acessória: é um modo de como o amor de Deus toma forma na vida de quem acredita n’Ele.
Disponibilidade: sair da visão curta
Habitados por Deus, vemo-nos, como Maria, a nós mesmos como chamados e convidados. A ação de Maria contrasta com uma visão da vida construída sobre o “eu” não disponível, fechado em si mesmo. Quando decidimos apenas observar o mundo sob um estreito ponto de observação, corremos o risco de chegar à conclusão de que a nossa opinião contém a verdade total. É a tentação de sempre: reduzir a realidade àquilo que nós já vimos, medimos, programámos. O nosso modo de pensar e de ver torna-se a medida única e exclusiva.
Maria mostra-nos que a abertura do coração é antes de tudo um esvaziamento do próprio egoísmo. A verdadeira disponibilidade do coração não é uma decisão humana. É, antes de tudo, uma graça que se deve pedir, livremente recebida, guardada e exercitada todos os dias. Não se caminha ao encontro do outro em sentido pleno, livre e alegre, se não deixarmos que Deus esteja vivo no coração; que seja Ele a tornar-nos abertos, esbugalhando-nos os olhos sobre aquilo que supera a nossa pequenina e mísera lógica humana.
Esvaziar-se é a forma primeira do amor
Numa cultura como a nossa, há o risco subtil da autorreferencialidade: o de acreditar que a própria identidade se constrói olhando para si mesmo, como num espelho cada vez mais pequeno. Maria dá-nos testemunho de outra maneira de olhar a vida: reposiciona toda a sua vida sobre a presença da Palavra no seu coração e, depois, sobre a necessidade de Isabel. Uma escolha que coloca a necessidade do próximo como chamamento e fruto da relação com Deus. É por isso que parte apressadamente ao encontro de quem está a precisar.
A verdadeira disponibilidade tem nas suas raízes a coragem de se colocar em discussão, de renunciar a si mesmo, mesmo quando parece uma perda. Não se trata de generosidade exibida, mas de liberdade interior, de liberdade que nasce de ter descoberto que só posso ser eu mesmo se eu me der ao outro radicalmente. Aquilo do coração aberto e disponível não é uma conquista e um troféu, mas abandono à Vontade do Pai.
Não um gesto de bondade, mas uma obediência a Deus que habita o coração
Maria não vai à casa de Isabel só porque humanamente crê que a prima idosa precisa d’Ela. A visita à prima não é gesto de bondade: é uma presença do Filho, que no seio está a conformar consigo a sua Mãe. O caminho de Maria ao encontro de Isabel é a missão mesma de Deus que toma a forma de um caminho ao encontro do Outro.
A visita de Maria é missão que é fruto da vinda do Filho n’Ela. Porque quando de verdade Jesus se torna parte da nossa vida, tudo aquilo que somos e fazemos, brota desta nascente única. Do encontro pessoal com Cristo nasce a missão.
Disponibilidade incondicional: para além dos resultados
Perante esta escolha livre e generosa de Maria, o nosso desejo de A imitar é marcado por uma tentação muito subtil, mas sempre presente: querer ver que tipo de resultados têm as nossas escolhas. Maria, que logo se põe a caminho, comunica-nos a decisão de um coração que já está repleto; e não busca seguranças e certezas fora de si. Porque a medida da missão e do seu sucesso está na viva relação com a Palavra que as habita.
Maria, ícone do coração livre – Palavra, Fé, Caridade
O Card. Martini SJ oferece-nos uma reflexão breve, mas densa e essencial: a Palavra é a semente, a Fé é o seio que acolhe, a Caridade é o fruto que nasce. Maria é a mulher que viveu esta dinâmica em sua plenitude: com humildade acolhe a Palavra, com Fé sai às pressas, com Caridade se dá. O seu “dirigir-se apressadamente” comunica aquele gesto de Caridade que deixa transparecer um coração livre e libertador, iluminado pela Palavra que Lhe sustenta a Fé.
Um coração aberto e disponível não é um coração sentimentalmente bom: é um coração que aprendeu a estar em tenção entre o anúncio - recebido e assumido - e o irmão e a irmã que aguardam, por entre a graça interior e o caminho a percorrer, por entre o mistério de Deus e a consistência da necessidade humana.
Maria ensina-nos que não é preciso ter compreendido tudo para partir...



